(Foto: David Mafra)
Sementes de romã,
lentilha e outros rituais gastronômicos da ceia de ano-novo
Réveillon deriva do verbo francês réveiller, que significa
revelar, despertar, acordar. “Para boa parte dos povos a virada do ano traz a
intenção de renovação, de fechamento de um ciclo e início de outro”, explica
Sandro Dias, professor de história da gastronomia do Senac. E, segundo ele,
tanto no passado quanto no presente os rituais e as superstições envolvendo os
alimentos são referências dessa transição.
"As comidas carregam a simbologia da fartura”, diz o
escritor e antropólogo Raul Lody. Os grãos, por exemplo, remetem à quantidade e
multiplicidade. “Arroz, lentilha, feijão, milho: todos, no imaginário popular,
simbolizam a fertilidade”, completa Lody. O peixe também é um clássico na ceia
de ano-novo. “Em diversas culturas ele faz alusão à partilha e purificação”.
São costumes seculares, difíceis de serem identificados em
uma linha cronológica. O que se sabe é que seus significados nasceram ou da
mitologia ou da tradição cristã, além dos ciclos naturais, como a época das
colheitas. Isso porque muitos povos europeus cultivavam rituais pela
fecundidade da terra e pela fartura de alimentos – afinal, em outros tempos não
era nada fácil sobreviver a geadas, tempestades ou períodos de seca.
As tradições que inspiram os rituais gastronômicos do réveillon não contam,
obviamente, com nenhuma comprovação científica. De qualquer modo, é difícil
achar alguém que nunca tenha se rendido a uma das “simpatias”, mesmo que por
pura diversão. Na contagem regressiva para a chegada de 2011, confira
curiosidades sobre as comidinhas de ano-novo. Na dúvida, não custa nada tentar
uma delas.
Peixes
“Eles simbolizam a purificação por meio de seu habitat, a água. Além de
serem férteis e se reproduzirem graças a uma infinidade de ovas, os peixes
quase nunca andam sozinhos”, anota Dias. “Quem os consome espera obter todas
essas sortes”. O bacalhau, clássico nas ceias brasileiras, é uma herança da
colonização portuguesa que, além da simbologia religiosa, durante muitos anos
foi a base da alimentação lusa por ser barato e de fácil conservação nos
períodos de estiagem. “Com o passar do tempo veio a escassez e ele passou a ser
um peixe nobre, consumido em ocasiões especiais”.
Porco
Os porcos são animais polêmicos na história da civilização. Enquanto
algumas culturas consideram sua carne impura, outras o tratam como animal
resistente, parrudo e que busca oportunidades – já que "fuça" para
frente. Por isso, é bem-vindo na ceia de ano-novo. “Os camponeses italianos
fazem uma festança para celebrar mais um ano de trabalho. O pé de porco com
lentilhas é um prato tradicional de boa sorte”, relata Dias. Segundo ele, os
alemães também prezam a carne suína na virada e degustam costelinhas e joelho
de porco com lentilhas e chucrute. “No México o forte é o menudo, sopa feita
com miúdos de porco condimentados”.
Lentilha e outros
grãos
Eles trazem a expectativa da fertilidade na maioria das culturas. “São a
base da alimentação na história da civilização”, diz Lody. O arroz, o trigo e o
feijão alimentam nações por gerações. Para os orientais, o mais simbólico deles
é o arroz, considerado o grão da vida. “Chineses, japoneses e indus consomem o
arroz em diversas receitas na esperança de prosperidade”, afirma Dias. No caso
da lentilha, diz a lenda que ela deve ser o primeiro alimento a ser ingerido na
ceia para que não falte dinheiro e saúde durante o ano. Isso porque as sementes
esverdeadas, da família das leguminosas, incham e dobram de tamanho depois de
cozidas.
Romã, uvas e outras
frutas
Repletas de sementes ou nascidas em cachos, elas trazem a ideia de
multiplicidade e fartura. “A uva é nobre em muitas culturas. É a fruta que dá o
vinho de Baco, o deus mitológico dos excessos, da fartura e das festividades”,
explica Lody. A romã, por sua vez, carrega a simbologia religiosa. “Para os
judeus, comer essa fruta no ano-novo judaico é questão de virtude e, ao comer
algumas de suas sementes, o homem estaria reforçando suas qualidades". O
peso religioso da romã também aparece no catolicismo. No dia de Reis,
costuma-se comer algumas sementinhas e guardá-las na carteira para ter sorte e
riqueza ao longo do ano”, descreve Lody. Para o escritor, as frutas também
ganham espaço nas ceias devido à sazonalidade, como é caso do figo. “É natural
que se busquem alimentos mais abundantes e acessíveis neste período. As frutas
da estação pautam e alimentam as tradições”, completa.
Frutas secas e
castanhas
Elas sempre estiveram associadas à fartura e à sorte por serem alimentos
resistentes, possíveis de ser armazenados durante muitos dias para garantir a
alimentação. "Nozes, castanhas, avelãs suportavam o inverno rigoroso no
hemisfério norte e as frutas secas eram a forma mais eficaz de conservação
durante os períodos de tempo ruim”, justifica Lody. Outro aspecto apontado pelo
professor Dias diz respeito ao tom lúdico dos doces à base de frutas: "Ao
comê-los na virada espera-se que se tenha um ano de igual doçura. Os judeus
costumam degustar maçãs embebidas em mel, sem contar a infinidade de sobremesas
de tradição ocidental”, completa Dias.
Cordeiro
As citações bíblicas comprovam o apelo religioso do cordeiro para os
católicos. “É um animal considerado puro e, por isso, é permitido até mesmo no
período da quaresma, em que os fiéis não podem comer carne vermelha ou de
animais de sangue quente”, explica Dias.
Louro
De origem greco-romana, o louro é símbolo de sucesso e vitória. “Ser
laureado significa ser reconhecido. Os atletas gregos que venciam recebiam uma
coroa de louros como prêmio”. Além disso, são folhas de uma árvore resistente e
que dão frutos em bagas volumosas. Guardar umas folhas de louro na carteira na
virada é promessa de sucesso e fartura ao longo do ano.
Fonte: Larissa
Januário, especial para o iG São Paulo.